Memórias do Antigamente
Já se ouve ao longe o barulho ensurdecedor das rodas dos carros das freguesias. Os bois estão agitados com tanta azáfama. As saias das meninas dançam com o vento. Os homens verificam se as cargas estão bem armazenadas. O corrupio sente-se na vila de Alijó. O cortejo de oferendas para o Hospital da Santa Casa da Misericórdia está quase a chegar. Na varanda da Câmara Municipal aquece-se a voz… “E vai entrar Alijóooooo”.
O relógio parou. O calendário marca o ano de 1969, a última vez que as freguesias se uniram em nome da caridade. O Hospital da Misericórdia de Alijó era a referência na área da saúde para as gentes do concelho. Era ali que a esperança morava, que o bem-estar e o espírito corporativo estavam lacrados nas paredes e, que sem grande esforço, rápido se transportavam para as mãos de quem cuidava.
O cortejo de oferendas não se resumia apenas aos quilos e quilos de comida que enchiam o armazém do Hospital nem à questão económica. Era muito mais do que isso. O cortejo de oferendas era a solidariedade e a união do concelho, era a mobilização e a festa. Respirava-se alegria. O Hospital da Santa Casa merecia.
Passados mais de cinquenta anos, as ruas que outrora sentiram o rolar dos carros de bois ou as socas das senhoras que energicamente dançavam, são hoje atropeladas pelos pneus e pelo andar apressado das gentes. A animação daqueles dias fugiu, perdeu-se com o tempo, a Revolução de abril trouxe os apoios e as ofertas para o Hospital nunca mais saíram das freguesias.
A saudade paira na memória daqueles que participaram e hoje recordam. Eram dias de muita alegria, dizem, com a voz embargada e os olhos brilhantes como se o sol daqueles dias de cortejo estivesse mesmo ali à sua frente e lhes mostrasse, de novo, o calor e amor das pessoas do concelho. O orgulho de quem calcorreava as pedras da calçada era grande, o coração batia de ansiedade, mas quem assistia não escondia a satisfação: era o Hospital que saía a ganhar. Depois o momento alto, a passagem pela tribuna engalanada. O Provedor, o Presidente da Câmara e os demais convidados recebiam, das mãos humildes, o fruto do trabalho, o suor e o cheiro das terras férteis sentia-se. Era tudo dado com o coração. A Misericórdia era a mãe para todos os males. Os filhos cabiam todos no seu colo quente, fraterno, misericordioso. E tal como naquela altura, hoje esta Instituição tem o seu nome e trabalho cravados em todos que por lá passaram e estão. A Santa Casa de Alijó tem história e legado que merecem ser preservados, contados e passados de geração em geração. O cortejo de oferendas perdeu-se com o passar dos anos, porém continua vivo, sobretudo, nos corações de quem dá sem pedir nada em troca, de quem cuida e recebe sorrisos, de quem, diariamente, constrói mais uma página desta Santa Casa.
Já se ouve ao longe a música, o coração bate cada vez mais depressa, as freguesias quase a chegar e a Misericórdia de Alijó de portas abertas para acolher.
Por Joana Vieira


