Santa Casa da Misericórdia de Alijó, como tudo começou!

O historiador Joaquim Barreira Gonçalves partiu à descoberta das origens da Instituição, desde a criação da unidade hospitalar até à aprovação dos seus Estatutos.

Em 28 de dezembro de 1899, com o País a sofrer um forte surto de peste bubónica, é implementada a organização geral dos Serviços de Saúde Pública, reforma sanitária de Ricardo Jorge, sob o Governo de José Luciano de Castro, e o Regulamento Geral dos Serviços e Beneficência Pública, logo depois, em 24 de dezembro 1901, sob o Governo de Hintze Ribeiro.

Nessa época, no Concelho de Alijó, não existia qualquer estabelecimento hospitalar, ou semelhante, para atendimento e tratamento de doentes. É, nessa altura, 1901, que a sociedade civil de Alijó arrebita a sua resiliência, com a cooperação de alijoenses ilustres, como o senhor Alexandre Gonçalves, de Vale de Cunho, e aí falecido em 2 de março de 1897, por testamento, de 1 de março de 1897, legou parte dos seus bens “…para o primeiro hospital ou casa de misericórdia que se formar na cabeça da comarca ou concelho…”, seguido pelas senhoras D. Amélia Bravo Borges e D. Delfina Borges Ervedosa, que fazem a doação da casa que possuem na vila, para ali se estabelecer um hospital e para qual fim houve a primeira reunião, em 19 de Março de 1901.

Na escritura de doação da casa, refere ter esta, pelo lado do poente, uma passagem de águas de rega, pelo quintal dos herdeiros de Luís Flamino Teixeira de Azevedo, sendo uma hora de água de 15 em 15 dias, contada da 1 às 2 horas da tarde de quinta-feira. “

No dia 2 de maio de 1901, João Dias Mateus, Juiz de Direito e Governador Civil de Vila Real, aprovou os Estatutos pelos quais se havia de reger o Hospital que pretendiam instituir na Vila de Alijó sob a invocação de Frei João Pecador. Ficava assim oficializado o Hospital de Alijó; Em 5 de dezembro de 1907, concedeu a Câmara Municipal de Alijó, devidamente autorizada, 1 000 litros de água em cada 24 horas, para o hospital. Foi captada na canalização municipal, na caixa d`ar da Gricha do Meio;              

Em novembro de 1909, mediante determinadas condições, deliberou a Junta de Paróquia de Alijó ceder a esta Misericórdia, para lhe servir de templo, a capela do Senhor do Andor. Logo, nesta data, já existia a intenção de criar a instituição Santa Casa da Misericórdia de Alijó e já assim apreciada.

Aos 12 de junho de 1912 reúnem-se em Assembleia-geral “os antigos sócios do Hospital de Todos os Santos, que ficam sendo Irmãos Fundadores, e pelas pessoas que forem admitidas como Irmãos, nos termos destes estatutos.”     

No artigo 5.º dos referidos estatutos regista: “A instituição denominada Hospital de Alijó ou de Todos os Santos, criada pelos Estatutos aprovados por Alvará de 2 de maio de 1901, fica, substituída, para todos os efeitos, por esta Irmandade, para qual passam, integralmente, os haveres e encargos daquele Hospital.”  Estava, desta forma, institucionalizada a Santa Casa da Misericórdia de Alijó, em 12 de junho de 1912.

Havia, porém, ainda algum caminho a percorrer, pois não podemos esquecer que a República liderava o Estado há cerca de dois anos, o que levou serem analisadas, detalhadamente, todas as instituições e coletividades, em especial as relacionadas com a Igreja. Em 28 de Janeiro de 1913 a Santa Casa da Misericórdia de Alijó submete à aprovação a reforma dos seus estatutos, a fim de dar cumprimento ao disposto no art. 169.º do Decreto, de 20 de abril de 1911.                                                       

“Considerando que a referida reforma os harmonizou com o consignado no aludido decreto e mais legislação aplicável;

Considerando porém que o consignado no art. 13.º, parágrafos 2.º e 3.º , fazendo depender o funcionamento da assembleia-geral da presença da maioria dos irmãos residentes na freguesia de Alijó, estabelece uma diferença entre os restantes irmãos que não pode justificar-se;     

Considerando que o disposto no parágrafo único do art.º 15.º, determinando que a venda de papéis de crédito só pode ser deliberada com a maioria dos irmãos residentes no concelho de Alijó, estabelece um princípio que não pode aceitar-se, porquanto, ainda estando presente a maioria dos irmãos a assembleia não poderia funcionar não assistindo a maioria dos residentes no concelho de Alijó, podendo, portanto, ficar uma minoria a obstar a resoluções de importância;

Considerando que as palavras do art. 35.º “ou ações de bancos e companhias de reconhecido crédito e prosperidade” se não harmonizam com o disposto no art. 35.º do Código Civil, que somente permite às associações ou corporações perpétuas empregar fundos consolidados do Estado os capitais que se destinam a fundo;             Usando da faculdade que a lei me confere:

Tenho por conveniente aprovar os presentes estatutos da Santa Casa da Misericórdia da vila de Alijó, com as seguintes alterações: Ficam eliminadas: as palavras “pelo menos e residentes nesta freguesia” do paragrafo 2.º do art. 13; as palavras “residentes nesta freguesia” do paragrafo 3.º do mesmo artigo; as palavras “ou ações de bancos ou companhias de reconhecido crédito e prosperidade” do art. 35.º. Por firmeza do referido mandei passar o presente alvará, que assino e vai selado com o selo branco que serve neste Governo Civil.                                                                 

Vila Real, 28 de janeiro de 1913.                             

José de Carvalho Araújo Júnior.”

Joaquim C. Barreira Gonçalves, Investigador de história local

 

Fotobiografia dos 120 anos da Santa Casa da Misericórdia de Alijó

Antigo Hospital Maternidade de Alijó, fundado a 11 d novembro de 1941.O mesmo edifício acolhe hoje a UCCI de Alijó.

 

 Edifício do primeiro hospital da vila de Alijó. Inaugurado em 1 de novembro de 1901.

 

Fundada em 1931, a Creche da SCMA funcionou no atual edifício dos Serviços Administrativos. Em 2 de julho de 1994 era inaugurado o novo e atual espaço que contou com a bênção Bispo da Diocese de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves. 

Inaugurada em 1985, a ERPI da SCMA viu ampliadas as suas instalações, cuja inauguração acontece em novembro de 2001. Nesse evento histórico, de entre as várias personalidades que marcaram presença, destaca-se a de Maria Barroso, então Presidente da Cruz Vermelha. 
Muitas foram as personalidades que ao longo dos anos dedicaram o seu tempo na defesa dos valores da SCMA. 120 anos depois, a Instituição trabalha arduamente para honrar o legado e continuar a construir um futuro mais próspero para esta Instituição centenária. 
O antes e o depois da Farmácia da SCMA. Corria o ano de 2011 quando o espaço foi alvo de uma grande intervenção com vista à sua modernização. 

Em 8 de setembro de 2010 era inaugurado o Centro Social do Pinhão. A cerimónia contou com a presença da Ministra do Trabalho e da Solidariedade Social, Dr.ª Helena André.

A Unidade de Cuidados Continuados Integrados de Alijó abriu portas em 1 de novembro de 2008. Na cerimónia de inauguração marcaram presença o Primeiro-Ministro, Eng.º José Sócrates, a Ministra da Saúde, Ana Jorge e o Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Pedro Marques.

Memórias do Antigamente

Já se ouve ao longe o barulho ensurdecedor das rodas dos carros das freguesias. Os bois estão agitados com tanta azáfama. As saias das meninas dançam com o vento. Os homens verificam se as cargas estão bem armazenadas. O corrupio sente-se na vila de Alijó. O cortejo de oferendas para o Hospital da Santa Casa da Misericórdia está quase a chegar. Na varanda da Câmara Municipal aquece-se a voz… “E vai entrar Alijóooooo”.

O relógio parou. O calendário marca o ano de 1969, a última vez que as freguesias se uniram em nome da caridade. O Hospital da Misericórdia de Alijó era a referência na área da saúde para as gentes do concelho. Era ali que a esperança morava, que o bem-estar e o espírito corporativo estavam lacrados nas paredes e, que sem grande esforço, rápido se transportavam para as mãos de quem cuidava.

O cortejo de oferendas não se resumia apenas aos quilos e quilos de comida que enchiam o armazém do Hospital nem à questão económica. Era muito mais do que isso. O cortejo de oferendas era a solidariedade e a união do concelho, era a mobilização e a festa. Respirava-se alegria. O Hospital da Santa Casa merecia.

Passados mais de cinquenta anos, as ruas que outrora sentiram o rolar dos carros de bois ou as socas das senhoras que energicamente dançavam, são hoje atropeladas pelos pneus e pelo andar apressado das gentes. A animação daqueles dias fugiu, perdeu-se com o tempo, a Revolução de abril trouxe os apoios e as ofertas para o Hospital nunca mais saíram das freguesias.

A saudade paira na memória daqueles que participaram e hoje recordam. Eram dias de muita alegria, dizem, com a voz embargada e os olhos brilhantes como se o sol daqueles dias de cortejo estivesse mesmo ali à sua frente e lhes mostrasse, de novo, o calor e amor das pessoas do concelho. O orgulho de quem calcorreava as pedras da calçada era grande, o coração batia de ansiedade, mas quem assistia não escondia a satisfação: era o Hospital que saía a ganhar. Depois o momento alto, a passagem pela tribuna engalanada. O Provedor, o Presidente da Câmara e os demais convidados recebiam, das mãos humildes, o fruto do trabalho, o suor e o cheiro das terras férteis sentia-se. Era tudo dado com o coração. A Misericórdia era a mãe para todos os males. Os filhos cabiam todos no seu colo quente, fraterno, misericordioso. E tal como naquela altura, hoje esta Instituição tem o seu nome e trabalho cravados em todos que por lá passaram e estão. A Santa Casa de Alijó tem história e legado que merecem ser preservados, contados e passados de geração em geração. O cortejo de oferendas perdeu-se com o passar dos anos, porém continua vivo, sobretudo, nos corações de quem dá sem pedir nada em troca, de quem cuida e recebe sorrisos, de quem, diariamente, constrói mais uma página desta Santa Casa.

Já se ouve ao longe a música, o coração bate cada vez mais depressa, as freguesias quase a chegar e a Misericórdia de Alijó de portas abertas para acolher.

Por Joana Vieira

Entidades contribuem para ajudar no combate à COVID-19

Com a solidariedade de centenas de pessoas, as ruas da vila de Alijó enchiam-se de alegria com os cortejos de oferendas realizados entre o início dos anos 40 e o final dos anos 60. Compostos por carros repletos dos mais variados produtos da região, notando-se em muitos deles ornamentações artísticas, sendo que toda a matéria angariada nesses cortejos revertia a favor do Hospital da Misericórdia.

Nestes tempos, as manifestações de solidariedade eram variadas e chegavam a atingir milhares de quilos de produtos e centenas de contos. Esta tradição existia em algumas Misericórdias do nosso país, sendo uma prática corrente nesta época. Todos estes cortejos tinham como propósito construir ou reabilitar infraestruturas das Misericórdias, nomeadamente os Hospitais que estas detinham.

Com o passar dos anos foram-se perdendo tradições, costumes, que os “antigos” tanto gostavam de celebrar. Muito se tem feito em prol da Instituição, desde projetos de reabilitação, inovação, solidariedade social e comunicação. Apesar disto, a SCMA precisa da solidariedade de todos e desta forma convida a população do concelho a ingressar nesta “onda” de solidariedade. Durante o ano de 2020, com o surgimento da pandemia, pudemos constatar um aumento da solidariedade, do espírito de entreajuda e de missão que surgiu em cada um de nós. No primeiro confinamento houve diversas empresas particulares e entidades públicas (Município e Juntas de Freguesia), que contribuíram com materiais de proteção individual, bens alimentares, equipamentos tecnológicos, entre outros. Toda a ajuda recebida foi fundamental para a proteção de utentes e colaboradores. Neste segundo confinamento, a situação do país agravou e talvez devido à fadiga da pandemia, a solidariedade foi menor. Apesar disto, a Instituição tudo tem feito para cuidar dos utentes e funcionários como sempre fez.

A Misericórdia pretende trazer de volta os costumes e tradições que se viveram no passado. Desta forma, convidamos a população do concelho a olhar para esta Instituição como a “casa” de todos e tal como acontecia há umas décadas, todos podem fornecer algum tipo de “oferenda” (bens alimentares, voluntariado para cultivo de terrenos agrícolas, doações de vestuário, mobiliário). Em alguns noticiários nacionais têm surgido peças dedicadas à solidariedade, um dos exemplos que surgiu recentemente foi o concerto realizado para os utentes de uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas. Tudo isto são exemplos de solidariedade. Todos os tipos de apoio (emocional ou funcional) são fundamentais para ultrapassar obstáculos e nos tornarmos mais resilientes. Perante a incerteza do momento, a solidariedade torna-se um valor fundamental para apoiar aqueles que precisam de ajuda, fortalecer iniciativas de cooperação e articular diferentes setores da sociedade. Ser solidário traz inúmeras vantagens ao ser humano, entre estas vantagens destacam-se os sentimentos de satisfação e bem-estar.

A Misericórdia pretende trazer para o presente os costumes do passado, ou seja, pretende que exista colaboração mútua e que a população se dedique a esta causa e se torne parte dela.

Por Bárbara Granja 

SCMA elege novos Órgãos Sociais

A Santa Casa da Misericórdia de Alijó foi a votos no PASSADO dia 11 de janeiro. Num ato eleitoral com bastante participação dos Irmãos foram a sufrágios duas listas.

Após a contagem dos votos foi proclamada vencedora a lista A encabeçada por Carlos Manuel Machado Magalhães para a Mesa Administrativa, Bruno Miguel Neves de Oliveira Cêrca para a Mesa da Assembleia Geral e Isaura Maria Cardoso Vieira Diogo na liderança do Conselho Fiscal, com 98 votos a favor, contra os 60 da lista B e 2 nulos.

Ao “Pelicano”, o Provedor Carlos Magalhães sublinha a disponibilidade e abertura da Instituição para toda a comunidade, mostrando confiança no trabalho desenvolvido por todo o Universo da SCMA afirmando que os novos Corpos Sociais constituem a Santa Casa “mas com a misericórdia de todos, isto é, todos temos de estar incluídos neste sentido de misericórdia, de amor, de fraternidade, de caridade, pois se assim estivermos a Misericórdia tem o futuro garantido para mais 100 anos”.

Os Órgãos Sociais agora eleitos estarão à frente dos destinos da Instituição para o quadriénio 2021-2024.

Joana Vieira