Irmã Maria Zita Mendes faz a retrospetiva de um serviço religioso em prol da Misericórdia
“Ser servas, todas dadas a Deus, competentes e alegres, é um dever de justiça para com os nossos “senhores e mestres”, os Pobres” (S. Vicente de Paulo)
As Filhas da Caridade foram fundadas em 1633 por S. Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac em Paris. É a primeira congregação religiosa feminina católica a ter vida apostólica; até então existia, para as freiras, apenas a vida claustral. O mote fundamental das Filhas da Caridade é o serviço aos pobres: nos hospitais, nas escolas, nas paróquias, nos campos de batalha, aos doentes mentais, às crianças abandonadas, às mulheres marginalizadas, às pessoas idosas, e outros.
Iniciaram a sua atividade em Portugal entre 1821 e 1822, sob a égide e direção do Padre José António da Silva Rebelo, como legítimo representante do Superior Geral.
A pedido de algumas das Misericórdias e de outras Instituições de apoio aos mais carenciados, as Irmãs instalaram-se em algumas partes do País. A Misericórdia de Alijó assume-se como uma associação de fiéis, constituída na ordem jurídica canónica, por conseguinte o seu objetivo é satisfazer carências sociais e praticar atos de culto católico, de harmonia com o espírito tradicional, enformado pelos princípios da doutrina moral e cristã. Foi neste seguimento que as Irmãs Vicentinas desenvolveram a sua missão nas valências que a SCMA detém. Em 1933 as Imãs começaram a sua atividade em estreita colaboração com a Direção, dando continuidade e desenvolvendo a obra já iniciada pelos Alijoenses. Para além do auxílio que prestavam à Instituição, também ajudavam a paróquia e o antigo Hospital, tendo participando no coro e dando catequese às crianças da vila.
Aos idosos e aos mais carenciados eram prestados todos os cuidados de que as Irmãs dispunham, tendo como máxima o “amor afetivo e amor efetivo” segundo São Vicente de Paulo. O trabalho das Irmãs com os idosos foi destacado pela capacidade e competência de “acolher, ouvir, escutar e aliviar o sofrimento” como recordam alguns dos utentes da ERPI que acompanham de perto a missão das Irmãs. Na altura também se ocupavam da enfermagem e apoio aos utentes, eram as responsáveis pela “casa” a partir das 18h00, altura em que fechava a parte administrativa.
No período em que prestaram o seu serviço à SCMA, a presença das Irmãs da Caridade de São Vicente de Paulo, foi marcada pelos 88 anos de espírito de missão, amor e dedicação. É com saudade que as Irmãs partem da Instituição Junho de 2015. Mas os contactos não se perderam e de forma a conhecer um pouco melhor o Passado da Instituição, o “Pelicano” recolheu alguns testemunhos de quem conviveu com as Irmãs Vicentinas.
Olívia da Conceição, utente da ERPI que na altura partilhou o seu dia-a-dia com as Irmãs, salienta que estas sempre foram “consideradas o rosto da Santa Casa e como é uma casa de orientação cristã eram elas as responsáveis pelos rituais religiosos, nomeadamente, as missas”. Destacou a assistência por parte destas, uma vez que as Irmãs residiam na ERPI e tinham conhecimentos ao nível dos cuidados de enfermagem.

O “Pelicano” esteve à conversa com a Irmã Zita que prestou o seu serviço nesta Instituição tendo exercido funções na Creche e Jardim de Infância. A Irmã Maria Zita Mendes nasceu em Moimenta da Beira, a 12 de Novembro de 1945 e pertence à Congregação Religiosa de S. Vicente Paulo.
A Irmã Maria Zita Mendes disponibilizou-se para recordar, em entrevista através da plataforma ZOOM, algumas das memórias que tem da Instituição. Ao longo da entrevista, foi notório o carinho que guarda por esta “casa”. A conversa incidiu no seu percurso pela Creche e Jardim de Infância, no qual refere que o que mais valoriza na educação das crianças é o “saber ser e saber fazer”, daí ser importante realizar visitas de estudo para as crianças aprenderem “um pouco mais sobre a vida”. Quando questionada acerca dos valores que incute às crianças refere que o mais importante é ensinar os valores básicos da vida em sociedade, entre os quais “saber agradecer, saber pedir desculpa e dar as boas horas” insiste que “são os pilares da vida”.
Recorda, com saudade, as visitas de estudo ao sapateiro, à padaria, ao talho, aos museus, que dinamizou nos anos em que passou pela Instituição. Refere que o mais importante era “ensinar às crianças de onde vem a comida que têm na mesa, cheguei a levá-los ao talho, às padarias, às feiras, ao sapateiro, porque não podem pensar que tudo na vida é um dado adquirido, têm que perceber que é importante valorizar o que têm (…) nestas idades não aprendem com sermões, aprendem a ver e a saber fazer, por isso é que valorizo muito isto na educação delas”.
Quanto às celebrações religiosas, refere que sempre transmitiu a “história de Jesus” às crianças de uma forma simples. Recorda, com um brilho nos olhos, as dramatizações, as histórias, as músicas que realizava com as crianças ao longo do ano letivo.
No que concerne à decrescente adesão dos jovens aos costumes e tradições da Igreja, refere que grande parte se deve “às alterações que a sociedade tem vindo a sofrer ao longo dos anos (…) as famílias tinham por hábito ir à Igreja ao Domingo, atualmente ou trabalham ou têm alguma atividade extracurricular com os filhos e isso acaba por limitar as suas idas à Igreja e a dedicação à religião”. Enfatiza que “Evangelizar os jovens é uma tarefa árdua, por isso é que devemos ser sinceros para chegar aos outros, só com a sinceridade é que nos levam a sério”. Refere que o Pontificado do Papa Francisco trouxe uma nova motivação aos jovens, menciona que este mantém as visões tradicionais da Igreja, contudo, tem vindo a adaptar-se às exigências do quotidiano e dos tempos “modernos”. Menciona também que a Sociedade deveria ter um papel mais ativo na Religião.
Ao longo da entrevista, uma das questões que surgiu foi o facto de ser recordada como uma pessoa “aventureira” e de ser alguém que valoriza muito as amizades, assim como ser “moderna e inovadora”. Para si o mais importante é “aprender ao longo da vida”, refere que “ou acompanhamos a sociedade ou perdemos o comboio”. O facto de ter aderido às redes sociais auxiliou-a na “transmissão da Religião”, desta forma faz uso do WhatsApp e do Facebook para enviar Orações, para partilhar documentação e até para lecionar a Catequese durante o confinamento.
No final deixou uma mensagem a todo o universo da SCMA: “Gostava de dizer para vestirem a camisola! Não façam da SCMA só um emprego, estejam aí de alma e coração (…) Tentem seguir o carisma, ou seja, a ideia inicial que levou à criação das Misericórdias e sejam felizes no vosso trabalho, só sendo felizes é que conseguem transmitir felicidade aos outros”.
TESTEMUNHOS:
Rafaela Silva, colaboradora da ERPI e afilhada de Crisma da Irmã Zita, deu o seu testemunho na primeira pessoa: “Sinto muitas saudades da Irmã Zita, escolhi-a para minha Madrinha de Crisma porque me ajudou muito, deu-me muitos conselhos, sabia tudo sobre mim, era uma pessoa com quem tinha um grande à vontade (…) Ela valoriza muito as coisas simples da vida, ensinou-me a dar mais valor à vida, ensinou-me que o pouco se torna muito!”. No que concerne à sua atividade laboral, refere que a ausência das Irmãs foi notada no sentido em que existia um “profundo respeito por parte dos utentes à matriz religiosa que elas representam”.
Catarina Teixeira e Nuno Almeida (11 anos), que frequentaram a Creche da SCMA, recordam alguns dos ensinamentos transmitidos pela Irmã Zita “ela levava-nos a conhecer as lojas das profissões antigas (…) íamos ao sapateiro ver como se faziam os sapatos! Na Primavera íamos apanhar as folhas das Amoreiras e alimentávamos os bichinhos da seda, quando se transformavam em Borboletas eram libertados e era uma enorme alegria para nós! A Irmã Zita fazia coisas muito giras!”.
Por Maria Bárbara Granja










